
Há alguns anos adotei o termo “QA – Question Asker”, uma fazedora de perguntas. Isso vem do livro Agile Testing Condensed, quando li o termo caiu como uma luva e me senti representada. A Janet quando leu isso no meu perfil reconheceu na hora! Isso veio muito antes de ser uma professora do Agile Testing Fellow, apenas nos encontramos de novo.
Duas coisas na minha opinião fazem um bom QA: Curiosidade e Fazer perguntas. Bem dosadas, são habilidades importantes, porque curiosidade demais pode te levar a perder o foco, fazer qualquer pergunta também não te ajuda a descobrir mais para te dar respostas e ter descobertas construtivas.
Lembro da minha última participação no TDC palestrando, assisti a palestra de um Jornalista que se tornou QA, trazendo toda a sua capacidade de fazer perguntas e ser curioso. No final um gerente de uma empresa que precisava recrutar QAs perguntou assim: “Onde que eu acho isso? Onde eu encontro pessoas como você? Porque isso não acha facilmente”. E ele tinha toda razão!
Agora vou contar pra vocês como a habilidade de fazer perguntas pode ajudar a encontrar problemas, eliminar incertezas e ajudar a solucionar casos em qualquer lugar, mesmo em um Uber.
Eu e meu marido Cristian Appugliese de Lariccia, também QA, pegamos um Uber para ir trabalhar às 5h45 da manhã (como todo bom paulistano pra fugir do trânsito, mesmo no Rio de Janeiro), um carro elegante, um motorista simpático resolve contar pra gente que o barulho que íamos escutar era de alguma coisa solta no carro, algo que ele ainda não havia encontrado, pra gente não se preocupar. Pronto! Suficiente pra dois QAs entrar no modo curiosidade total.
Minha cabeça na hora calculou o tempo de 1h30 para chegar até o trabalho e prestou atenção em cada frase do motorista sobre a tal peça solta.
Relato inicial do motorista sobre o problema:
Tinha uma peça solta, mas só quando o carro estava em movimento que era percebido. O barulho ficava do lado do motorista na parte traseira do carro. No final de semana, abriu o porta-malas e desmontou atrás do banco toda a parte de carpete, porque achava que era um fio solto batendo na lataria do carro. Nada foi encontrado. Sua próxima ação seria pedir para a mulher levar o carro enquanto ele inspecionava atrás qual o problema que poderia ser.
Nossas condições/conhecimento sobre carro:
- Não temos carro;
- Não dirigimos;
- Não temos habilitação (morar em SP com transporte farto, tem a ver com isso).
Então, começamos a observar e perguntar:
O que tem desse lado esquerdo do carro na direção do vidro traseiro atrás do passageiro?
Quais são as partes móveis e que poderiam roçar nessa parte de trás?
Então fiz uma checagem visual no teto do carro atrás de alguma coisa. Outra no banco que estava bem preso, não era algo que pudesse ser ele. Na tampa atrás do banco também estava bem fixa, sem espaço pra raspagem. Praticamente um teste de caixa preta.
E observamos algumas coisas:
- Só acontecia em movimento;
- Só acontecia quando passava em buracos não muito rasos, os que chacoalhava o carro.
Começamos a subir a serra, íngreme. Lembrando o papo com outro Uber, adoro colecionar histórias de Uber, pergunto muuuuuito! Tem sempre um que fica preso na serra, não consegue subir até o final. Alguns motoristas solidários e mais experientes, saem dos seus carros pra ajudar outros motoristas a terminar de subir. Ele trouxe a história de um motorista que “não tinha gasolina”, porque na subida com o carro inclinado não alcançava onde precisava, então não “tinha gasolina” pra subir.
Pensei o mesmo sobre o barulho do Uber, percebemos na subida e na descida:
- Só acontecia quando o carro estava no plano;
- Não acontecia quando estava na subida, mesmo que passasse em buracos;
- Não acontecia quando estava na descida, mesmo que passasse em buracos.
Então continuamos a observar:
- O barulho era seco, não era algo que estava balançando e batendo na lataria;
- O barulho era de raspagem em alguma coisa;
- Não era o mesmo barulho de quando algo batia na lataria.
Pouco mais de 1 hora de estrada, muita pergunta e cérebros completamente acordados e fritando logo cedo haha, ainda sem uma pista sequer, nossas perguntas estavam ficando escassas.
Quando ficamos completamente parados no trânsito, o Cristian começou a olhar para os carros em volta. Por acaso, parou do lado do Cristian um carro igual ao que a gente estava.
Então, mais perguntas surgiram:
- O que tem do lado de fora do carro nessa direção? O tanque de gasolina?
A resposta veio acompanhada de uma história. Ele havia descoberto recentemente, que no painel do carro tinha uma seta, aparentemente perdida no meio de tanta luz, que indicava de que lado estava o tanque, para que pudesse estacionar do lado certo na bomba do posto de combustível. Mais uma vez me lembrei o quanto é legal ler manuais e ter uma boa documentação.
E veio a constatação dele: “Sabe que eu acho que você matou a charada?”
Na última ida ao posto de gasolina, ele não tinha encaixado uma peça interna da rosca que abre o tanque, estava só apoiada, faltava encaixar. Alegou que era complicada e estava com pressa.
QAs empolgados nesse momento!
O motorista saiu do carro no meio do trânsito, parado, para verificar. Nem ele estava se aguentando de curiosidade. Era a tal peça que não tinha sido encaixada e só estava solta dentro da entrada do tanque de gasolina!
Mistério resolvido com perguntas e muita observação para eliminar e cercar o problema.
Essa até a gente se surpreendeu, foi muito empolgante! A gente perguntava e ficava em silêncio pensando, perguntava e ficava em silêncio pensando. Compartilhava em voz alta qualquer balanço diferente do carro pra constatar que aquele pensamento estava correto.
E aí, o que acharam? Pra gente foi bem divertido!